terça-feira, 19 de agosto de 2014

Perdão, Leonardo Peacock – Matthew Quick


"Primeiro eles o ignoram, depois riem de você. Em seguida lutam com você, e então você ganha."
Os heróis e vilões das histórias populares raramente são o que parecem ser. Cruzado de um homem é o assassino de outro homem.

Nunca é fácil julgar uma pessoa, mesmo com todos os fatos expressamente aparentes. E ainda assim, os pseudo culpados ficam a mercê do julgamento final. Mas a história raramente faz as coisas direito. Embora a ciência da história é toda sobre fatos, a concepção moderna da história raramente é precisa. A percepção de eventos passados é tão manchada por séculos de propaganda antiga que pode ser difícil de discernir a verdade da nossa sociedade própria, como se fossem interpretações coloridas.

Olhe ao seu redor nesse momento, procure por noticias na internet, em seu tablet, jornal ou revista impressos. O mundo está cercado de coisas ruins, males diários que passam por nós sem que, muitas vezes, possamos sequer notar. Não é o caso do protagonista do livro de Mattew Quick. Leonard Peacock se importa. Sua luta diária é não deixar o mundo destruí-lo, mais do que possivelmente já o estilhaçou por dentro.

A narrativa desta obra se passa praticamente em torno de um único dia, o aniversário de 18 anos de Leonard, e também o dia em que ele escolheu para matar seu ex melhor amigo e depois se suicidar com uma P-38 nazista- "Mato você mais tarde - digo para o sujeito no espelho, e ele apenas sorri de volta, como se mal pudesse esperar". (Uma das frases mais chocantes que li apenas no primeiro capítulo do livro).

Além de carregar a arma que foi de seu avô, Leonard também embrulha quatro presentes com papel cor de rosa para entregar as pessoas mais importantes de sua vida, antes de completar sua missão. É por isso que as pessoas dão presentes, certo? Por que não sabem como se expressar em palavras, então dão presentes para expressar simbolicamente seus sentimentos.

Leonard pretende se despedir de quatro pessoas: Walt, seu vizinho idoso e solitário com quem passa o tempo assistindo filmes de Humphrey Bogart; Baback, um garoto de sua escola e talentoso violinista, mas que não quer ser seu amigo por o achar um tanto quanto estranho; Lauren, uma jovem cristã que ele conheceu no metrô, e que tenta a qualquer custo o converter para conhecer o amor de Jesus Cristo, e por fim, Herr Silverman, um educado e muito competente professor, que ensina aos seus alunos sobre Holocausto, promovendo debates e reflexões dignos de te prender por horas, talvez dias a fio no assunto.

Em todas as visitas para a entrega dos presentes, percebemos que Leonard tenta de uma forma quase suplicante que aquelas pessoas o tirem do abismo que ele se encontra, e que o salve de sua missão, mas nenhuma delas consegue enxergar a profundidade de sentimentos que habita o jovem, até então, pré julgado como "esquisito". Admito que até certo ponto do livro eu mesma cheguei a pensar que ele tinha problemas freudianos em relação ao papel de seus pais em sua vida, e seria mais um adolescente clássico de estórias trágicas modernas que sai atirando em seus amigos e depois se mata.

A mágica do livro é que somos levados a julgar até nosso limite (lembrem se dos fatos expressamente aparentes), para depois ganhar de brinde um grandíssimo tapa na cara, revelando a verdadeira mensagem deste livro.

Os capítulos são quebrados por algumas "cartas do futuro". Nelas existem mensagens reconfortantes de como seria o futuro de Leonard, pedidos de força e superação, que são escritas pelo próprio protagonista, a fim dele tentar enxergar algum motivo para não se matar. A parte realmente emocionante do livro são as tais cartas, que apresentam um cenário otimista, e pessoas que realmente entendem a essência de Leonard, e pedem para que ele não acabe com a sua vida. Neste momento, entendemos o que de fato aconteceu.

Leonard foi abusado sexualmente por anos a fio pelo seu melhor amigo, Asher. Sua mãe é uma mulher completamente ausente, que chegou a pegar os dois nus em seu quarto e nada fez a respeito, seu pai, um ex viciado em drogas e também alcoólatra, está perdido no mundo, e Leonard não têm ninguém a não ser a sua própria consciência.

Perdão Leonard Peacock, traz a tona problemas sociais muito comuns nos dias de hoje, porém repassáveis aos nossos olhos frustrados com nossas vidas entediantes e nossas dividas intermináveis.

Como funciona a mente de um jovem que sofre buylling e possui pais relapsos? Como você imagina a luta interior de uma pessoa para viver dessa maneira? Leonard tenta a qualquer custo enxergar positividade antes de tomar uma decisão fatal. Ele se veste como um adulto todos os dias depois da escola e anda de metrô sem rumo analisando as pessoas, para tentar enxergar na escuridão alguma possibilidade de luz. E o que ele vê? Pessoas cabisbaixas, que só reclamam e xingam umas as outras porque estão bravas com seus chefes mandões, com seus maridos e esposas ausentes, com filhos barulhentos e a falta de sono. Leonard escreve em suas cartas do futuro uma vida simplória, onde o aniversário de seus filhos são lembrados todos os anos, onde um sorriso vale mais do que dinheiro e onde os seres humanos possam se olhar nos olhos sem nada a temer.

Sei como é difícil ser diferente. Mas também sei a arma poderosa que ser diferente pode vir a ser. Como o mundo precisa de tais armas. Gandhi era diferente. Todas as grandes pessoas também pessoas únicas, precisam procurar outras pessoas únicas que as entendam, para que não fiquem muito solitárias e salvem as pessoas normais delas mesmas.

Por fim, quando Leonard percebe que ele não pode mudar o mundo, mas que ele pode mudar a percepção da vida dentro de si mesmo, ele coloca em pratica aquilo que Antonie de Saint Exupéry já pregou uma vez em sua vida: "É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio".

Um deleite de verdades, uma realidade injusta e cruel, um triste recomeço, porém uma leitura belíssima em essência e ensinamento de vida. Minha total e singela indicação de horas de reflexão sobre seus próprios julgamentos internos e externos. Você teria coragem de se enviar uma carta do futuro? Boa leitura!