sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Dançando sobre cacos de vidro – Ka Hancock



“O amo tanto que, se pudesse, dançaria contigo para sempre sobre cacos de vidro.”

“Ele estendeu os braços e eu caminhei lentamente para me aninhar entre eles e me abrigar no único lugar que para mim era o lar.”

Desta maneira, inicio uma das resenhas que provavelmente se tornará a minha preferida.
Lucy Houston e Mickey Chandler não deveriam se apaixonar. Os dois sofrem de doenças genéticas: Lucy tem um histórico familiar de câncer de mama extremamente agressivo, e Mickey possui um grave transtorno bipolar. No entanto, seus caminhos se cruzam no dia em que Lucy completa 21 anos, e decide comemorar seu aniversário no bar onde Mickey trabalha como administrator e comediante.

A partir deste dia, e contrariando toda a lógica que indicava que suas histórias não passariam de uma noite e nada mais, eles se casam e firmam, por escrito, um compromisso de fazer o relacionamento dar certo. Sim, os dois escrevem juntos um contrato que impõe regras devido as doenças que ambos carregam como um carma para o resto de suas vidas. Mickey promete tomar os remédios diariamente. Lucy promete não culpa-lo pelas coisas que ele não pode controlar. Mickey será sempre honesto e Lucy será sempre paciente. Toda relação possui momentos bons e ruins, mas Mickey e Lucy possuem dias extraordinários e dias completamente terríveis.

Depois de Lucy quase perder uma batalha contra o câncer, eles criam mais uma regra no contrato: nunca terão filhos, para além de não passar adiante a herança genética de sua família, a criança também nunca ter que lidar com um ser humano que ora está consciente de seus atos, e ora encarna um personagem completamente desmistificado da realidade.

Como toda boa história de amor, ou talvez seja de vida, a grande reviravolta acontece no aniversário de 11 anos do casamento de Michael e Lucy. Uma noticia que mais parece um milagre do que uma notificação, chega para jogar todas as regras pela janela e fazer redescobrir o verdadeiro significado do amor dentro de duas almas perturbadas pelo medo e a insegurança.

Já que o protagonista principal desta história é o amor, vamos falar um pouco sobre como ele pode se manifestar de diversas maneiras: Priscilla e Lily são mais do que as irmãs de Lucy, diria que a vida obrigou de certa maneira a se tornarem quase alma gêmeas. Depois que seu pai as deixa muito jovem, e sua mãe perde uma batalha contra o câncer quando ainda são adolescentes, a estrutura familiar tem duas opções de continuar a existir: se esfarelar ou se unir em um laço eterno impossível de se quebrar. (Neste caso a segunda opção é a que mais se encaixa). Já Michael perdeu sua mãe para a bipolaridade, e passou os dias lutando contra e a favor de suas diversas personalidades. O amor para Michael é o porto seguro de Lucy e o de Lucy é o apoio de suas irmãs.

Mas na verdade, o que quero falar aqui é de um outro tipo de amor. O amor que ninguém no inicio consegue ver ou pegar nas mãos, mas consegue sentir pelo simples fato de ter a consciência que ele é fruto da junção de um sentimento maior: a cumplicidade. Sim, Lucy e Michael estão grávidos, e o mais intrigante é que anos antes, quando Lucy esteve com câncer e levando em consideração os transtornos de Michael, foi decidido pelo casal que ela passasse por uma cirurgia que não a permitiria ter filhos. De alguma maneira, aqui julgue uma brincadeira ou não do destino, o embrião conseguiu chegar até o útero e de certa forma obrigar a família a aumentar.

Então um dilema começa na vida do casal. Eles não poderiam ter filhos por diversas razões: Mickey não saberia como reagir devido ao seu transtorno, Lily havia perdido um filho e foi combinado entre as irmãs que nenhuma delas jamais engravidaria, e Lucy vivia tendo pesadelos que seu câncer voltaria. E infelizmente é aqui que a história efetivamente começa. Em exames rotineiros, Lucy descobre que está novamente com câncer de mama, e o pior, com uma metástase espalhada por todo o seu pulmão. Por conta dessa devastadora revelação, Mickey, os médicos, amigos e a própria família de Lucy decidem que o melhor a ser feito para salvar sua vida é que ela aborte a criança e inicie o tratamento agressivo contra a doença. Porém, no momento em que ela chega ao consultório para realizar o procedimento, Lucy sente a presença da morte, já que desde criança, ambas mantém um contato implícito devido o falecimento de seus pais. Desesperada, Lucy decide que terá a criança, mesmo que o preço a pagar por isso fosse muito caro. É aqui que li uma das frases que mais me marcou ao longo da leitura, e ela vem justamente de Michael:
"Descobri que a realidade é muito mais cruel que a loucura. A loucura pode ser medicada, reduzida, sedada".

 A loucura está sob a perspectiva triste e ao mesmo tempo feliz em acompanhar a batalha de Lucy contra o câncer, e é maravilhosamente incrível saber que ela não desistiu de sua tão sonhada filha. Desde que descobriu que estava carregando um bebê, Lucy tem a certeza de que será uma menina, e é esse vínculo impressionante que uma mãe cria com seu filho que faz com que Lucy aguente até os últimos segundos de vida para dar a sua própria em troca da vida de outro ser humano.

Michael não entende o porque sua amada esposa está desistindo de viver por causa de uma criança, e chega a odiar a filha por muitos meses. O livro passa a se tornar espetacular quando te faz enxergar de forma sincera o que realmente significa a palavra que todos buscam sentir incessantemente na vida: o amor.

"Haverá momentos em que vocês dançaram sobre cacos de vidro. Haverá sofrimento. Nesse caso, ou você fugirá ou aguentará firme até o pior passar."

Com esta belíssima obra, me peguei pensando sobre o porque o amor acaba se tornando uma redenção de diversos outros sentimentos. Para conseguir amar, é preciso mais do que companheirismo, levar ao cinema ou dizer que ama. Para amar, deixamos de ser egoístas, enfrentamos o mundo e os pedregulhos da vida, aprendemos que um vira dois, que dois viram um, que acordar e dormir se torna uma motivador, que cuidar do jardim é mais importante que esperar que ele floresça o tempo todo, que ter paciência se torna um sobrenome, que perdoar faz parte das horas, que se ganha mais do que se perde, e que sempre existirão cacos de vidro, o importante é conseguir junta-los até que formem uma vidraça indestrutível e inabalável.

Michael e Lucy significam a junção de muitos sentimentos que formam um único na linha de chegada. Explico o porque:

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego. Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu sair de seu pensamento. Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa. Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para de existir. Intuição é quando seu coração dá um pulo no futuro e volta rápido. Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista. Vergonha é um pano preto que você quer para se cobrir em determinados momentos. Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja. Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes. Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração. Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma. Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta para os outros. Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas geralmente, não podia mesmo. Lucidez é uma acesso de loucura ao contrario. Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato. Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Paixão é quando apesar da palavra perigo, o desejo chega e entra sem pedir permissão. Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. O amor também não é um exagero, é um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um desproposito, um descontrole, uma necessidade e um desapego. Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tenha explicação, esse negocio do amor ninguém consegue explicar. Mais eu consigo explicar da seguinte maneira: Michael é Michael e Lucy é Lucy, um complemento eternamente perfeito.

Acabo este resenha deixando a frase final de um dos livros mais impressionantemente verdadeiros que já li:

“Amo você, meu bem. Mas não estarei aqui quando você acordar.”