sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Selvagens – Don Winslow, resenha por Milena Pacheco


"A droga teoricamente é ruim, mas em um mundo ruim é algo bom se você sacar a polaridade invertida disso. Isso gera equilíbrio. Em um mundo fodido, você tem que ser fodido ou você acaba caindo." 

Durante um breve período tivemos uma civilização que se aferrou a uma estreita faixa de terra entre o oceano e o deserto. Nosso problema era a água: em excesso de um lado, mais escassa do outro, mas isso não nos deteve. Construímos casas, rodovias, hotéis, shopping centers, condomínios residenciais, estacionamentos, edifícios - garagem, escolas e estádios.

Proclamamos a liberdade do individuo, compramos e dirigimos milhões de carros para provar isso, construímos mais estradas nas quais dirigir os carros para podermos ir a toda parte que era parte alguma. Regávamos nossos gramados, lavávamos nossos carros, engolíamos garrafas plásticas de água para nos mantermos hidratados em nossa terra desidratada.

Erguemos templos as nossas fantasias, estúdios cinematográficos, parques de diversão, catedrais de cristal, megaigrejas e os frequentávamos em rebanhos.  Íamos a praia, pegávamos onda e jogávamos nosso lixo na água que dizíamos amar.

Reinventávamos-nos todo dia, refizemos nossa cultura, nos trancamos em comunidades fechadas, comíamos alimentos saudáveis, paramos de fumar, erguíamos o rosto ao mesmo tempo que evitávamos o sol, fizemos peeling, retiramos nossas rugas, sugamos nossa gordura da mesma forma que fazemos com nossos bebes indesejados, desafiamos o envelhecimento e a morte.

Fizemos da riqueza e da saúde duas deusas. Uma religião do narcisismo.

Comecei a resenha desta maneira, não porque tenho o desejo de pregar sermões e ganhar seu voto na próxima eleição, mas porque Selvagens, livro de Don Winslow, fala justamente de um mundo corrompido, onde a carne é fraca e apenas a alma sobrevive. Será que sobrevive mesmo?

Vamos ao livro: Ben e Chon são amigos e parceiros de negócios. Como todo bom jovem morador de Orange Country, ambos curtiam festas, sexo e um bom e velho conhecido baseado. Porém, como acontece com todos uma hora ou outra, eles sentiram necessidade de ganhar dinheiro, e decidiram fazer do ditado "Faça o que ama e nunca trabalhará um só dia na vida" um lema. Foi desta maneira que começaram a plantar e produzir a melhor erva do mundo.

Ben é um pacifista convicto e vive dentro de uma ambiguidade tremenda. Ao mesmo tempo que embolsa milhões vendendo droga, não aceita a violência que envolve o mundo do tráfico, e basicamente utiliza todo seu dinheiro viajando o mundo auxiliando pobres e oprimidos e adquirindo febre amarela de brinde.

Já Chon, um ex mercenário, não é tão iludido, ele sabe muito bem que nesse negócio não há como escapar ileso da violência.

Ter seu próprio negócio é uma faca de dois gumes. Se você não ganha dinheiro, é considerado um fracassado e não possui a veia empreendedora como costumam falar por aí em sermões de liderança. Porém, se você ganha muito dinheiro, começa a incomodar muitas pessoas. E foi desta maneira que Ben e Chon iniciam um eletrizante jogo de espertezas, ou melhor dizendo, uma guerra sanguinolenta pelo poder.

O Cartel de Baja, com sede em Tijuana, exporta um volume imenso de drogas para os EUA e quer controlar todo o mercado de maconha da Califórnia. Como a erva de Ben e Chon é a melhor da região, o cartel fará de tudo para que a dupla trabalhe para eles, e não aceitará uma negativa como resposta.

Quando os rapazes se recusam a aceitar a oferta, o cartel resolve trabalhar em cima da fraqueza dos dois jovens, é aí que entra nossa bela e amalucada protagonista, "O". Na verdade seu nome é Ophelia, mais ela é citada como "O" porque ela gosta tanto de sexo, que seus orgasmos são sempre "O´s" contínuos e prolongados. Ophelia, além de amiga, é amante de Ben e Chon, que não se incomodam nem um pouco em dividir a loira, alias, os três vivem felizes dentro de um relacionamento livre dos obstáculos morais. Que selvageria, concordam?

Vamos justamente falar sobre "selvageria". Em paralelo ao triangulo amoroso, temos Elena, a mandante do Cartel, que não gosta nem um pouco de derrubar sangue, mas é a única capaz de ter "sangue frio" para lidar com a violenta realidade do mundo das drogas. Seus irmãos, antes donos do negócio, faleceram, e Elena não teve outra escolha se não aceitar comandar o negócio da família. Junto com ela, temos Lado, um inescrupuloso guardião de toda a operação do Cartel. Junto com Elena, Lado investiga a vida de Ben e Chon, e abismado com o relacionamento que ambos mantém com "O", arma o sequestro da mesma, e ameaça por videos, corta-lhe a cabeça. Agora volto a perguntar, quem é mais selvagem nessa história toda?

Junto a esses instigantes personagens, temos por último, Dennis, um policial corrompido, que vive a custa de propinas,e passa informações tanto para os dois jovens portadores da melhor erva da Califórnia, quanto ao poderoso e violento Cartel de Baja. Já imaginaram que a confusão toda começa quando Dennis resolve botar a radio peão para funcionar, e literalmente permitir voar merda para todos os lados. (Me desculpem o palavreado, mas não consigo escrever sobre um cenário tão sanguinolento, sem ser um pouco evasiva).

Don Winslow escreveu sim, um romance (Já explico o porquê). A narrativa da obra é um tanto quanto peculiar. A trama é narrada em terceira pessoa, mas não de uma forma linear. Para o leitor, nos perdemos um pouco achando que ora é um dos personagens que está narrando a história, e ora aparenta ser um mero observador externo. Assim como Oliver Stone, que fez o livro virar filme, a história acaba se tornando concisa sem ser simplista. Alias, nem um pouco simplista. Encontramos frases diretas, irônicas e recheadas de humor negro. Prepare se para entrar em uma leitura de linguajar despojado e muitas vezes ordinário, um cenário perfeito para a atmosfera de submundo do crime.

Voltando ao romance (ops, romance?). Sim. Você já deve ter lido, visto ou ouvido falar de Romeu e Julieta? Pois bem, o final é marcado por uma denúncia de amor verdadeiro em meio a um mundo de belos selvagens.

O que é ser selvagem afinal? Doidos são pessoas normais ou pessoas normais são doidas? Eis que chego finalmente a reflexão do livro. Levando em conta a personalidade dos personagens, acompanhamos ao longo da leitura a transformação de sua então considerada selvageria em um final estupidamente surpreendente. Se em um mundo corrompido, nossa alma é a que sobrevive, porque agimos da forma que agimos, se não por um sentimento que vem de dentro da própria alma? Uma mãe é capaz de matar se ver o seu filho sofrendo, então como explicar uma atitude considerada selvagem, quando se é capaz de matar o próximo e a si mesmo por amor?

No final das contas, idolatramos a nós mesmos fazendo esse tipo de reflexão, mas também agimos sendo selvagens até mesmo no mais nobre dos sentimentos.

Já dizia o poeta Renato Russo: "Nosso suor sagrado, é bem mais belo que esse sangue amargo, é tão sério e selvagem. Nem foi tempo perdido, somos tão jovens".

"Vamos viver na praia e comer os peixes que apanharmos. Colheremos frutas frescas e subiremos em coqueiros. Dormiremos juntos em esteiras de palha e faremos amor. Como selvagens. Belos, belos selvagens".

Boa leitura!