sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Estrela mais Brilhante do Ceú – Marian Keyes


"Há um sentido na dor. Há um motivo e uma direção para ela."

"Uma casinha de sapê, foi o que eu fiz só para agradar você. Você não sabe quanto tempo esperei pra isso acontecer. Todos os dias eu me empenhei, para te provar que iria ser bom. Todas as noites no seu olhar, vi que valia a pena. Nem no infinito e nem no luar, existe um brilho tão natural. No céu as nuvens vem desenhar o que já estava escrito." 

E é desta maneira, que apaixonadamente tento fazer de minhas palavras jus a um livro tão cheio de vida e de morte, de amor e de dor, de choros e risos, e de encontros e desencontros. Se eu pudesse definir esta obra de Marian Keyes em uma única palavra, eu diria: antônimos. 

Para que fique claro, eu preciso dissecar cada personagem e sua alta definição do que a vida nos reserva como motivos. A história se passa em uma casa em Dublin, uma dessas casas antigas, de estilo georgiano, que fora convertida em quatro apartamentos. 

No último andar da Star Street 66, mora Katie, uma recém quarentona, que trabalha na área da indústria fonográfica, e passa seus dias bajulando estrelas do rock. Katie se relaciona com Conall, um homem amargurado pela infância sofrida, e que conquistou todos seus milhões dedicando 200% do seu tempo ao seu BlackBerry. No pain no gain, certo? É o que veremos mais pra frente. 

No apartamento de baixo, vive uma jovem taxista chamada Lydia. De personalidade forte e marcante, ela não têm medo de nada, e dividi o pequeno espaço com dois poloneses lindos e musculosos. Lydia parece ser a personagem mais sem contexto do livro, porém é na minha opinião, uma das mais intrigantes. Já chegaremos lá.

Abaixo, mora Jemina, uma senhora idosa com aparentes poderes psíquicos, e seu fiel cachorro Rancor. Essa doce senhora possui um filho adotivo, Fionn, um jardineiro que não se importa com absolutamente nada do mundo material, e vive carregando dentro de seus bolsos "mágicos" mudas de plantas. Além de ser incrivelmente bonito, ele acaba de se tornar apresentador de um programa de TV sobre jardinagem. Será que seu lado simples e mistico vão permanecer intactos por uma esfera altamente dominada por status e matéria?

No primeiro andar, moram o doce casal Matt e Maeve. De tão açucarado, o amargo da vida resolveu desafia-los com um trauma sufocante que os assombra dia e noite através de uma tentativa rotineira de salvamento. Existe escuridão em uma aparência tão magnificamente bela?

Para responder todas as questões, vamos falar sobre o personagem principal, que não mora na Star Street 66, ainda...O livro é narrado por um misterioso espirito, que vive acompanhado por uma especie de guia. Sabe aquela velha lenda que diz que a morte anda sempre lado a lado com a vida? É preciso que um morra para que outra nasça. É exatamente sobre isso que o livro trata. O narrador desta belíssima historia vai nascer, e ainda não sabe quem serão seus pais. Ele passa os capítulos analisando a vida dos moradores da casinha de sapê, intrigado por suas historias de vida. Mas você deve estar se questionando: se algum deles serão os pais deste bebê, quem vai morrer para que isto aconteça? Deixo a mercê de vocês dar um palpite. 

 Kate e Conall possuem corações batendo na mesma sintonia, porém Conall vive divido em se entregar a um amor claramente existente, ou perder toda sua trajetória profissional conquistada pela abdicação total e completa da vida em prol da tão famigerada glória. Lydia por sua vez, passa os dias se matando de trabalhar para ganhar duros trocados ,e cuida sozinha de uma mãe que sofre de demência. Ellen sofreu ao longo da vida diversos pequenos AVC´s, que juntos formaram uma pessoa desestruturada emocionalmente, que vive em uma linha tênue entre a sanidade e a loucura. Fionn abandona sua pacata vida de jardineiro para se tornar um astro da televisão britânica. Ele se pega amadurecendo de forma drástica quando percebe que tudo aquilo que pregava não passava de uma balela bonita de ser dita, mais altamente difícil de ser praticada. Matt e Maeve viveram aquilo que poucos têm a oportunidade de experimentar na vida: o amor a primeira vista. Se amaram desde o momento que colocaram os olhos um no outro. Porém Maeve é estuprada e violentada por seu ex namorado, um homem perturbado que não aceita perder seu troféu por um amor predestinado. O casal passa três anos de suas vidas sem se tocarem, e pensam constantemente em acabar com suas próprias vidas. O que é o amor sem a demonstração física, carnal e emocional?

O grande momento do livro é quando todas essas histórias se entrelaçam, e acontece um grande encontro e desencontro de pessoas e situações. Os casais se esfarelam, uns se relacionam com os outros buscando a salvação imediata de suas dores, mas por algum motivo ou razão, a vida sempre dá a direção correta dos acontecimentos. Enquanto lia essa sucessão de idas e vindas, me lembrei de uma citação de Vinícius de Morais: " A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".

Cada encontro está carregado de perda. As vezes duas pessoas que se amam, se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade, um deles chora, ou fica triste, ou baixa os olhos, ou é invadido por uma inexplicável melancolia. É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre vem carregado de todas as experiencias de desencontros anteriores. Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro. Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas, é alguém com quem você se desencontra. Aquela a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente do desencontro. Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade de afeto. É a experiencia de desencontros que ensina o valor dos raros momentos que a vida permite. A própria vida é uma especie de ante sala do grande encontro. Por isso talvez ele nada mais seja que uma provação de desencontros preparatórios da penetração da essência do ser. É por isso ou por aquilo que cada encontro está carregado de perda. É no ato de sentir- se feliz, que se associa a ideia do passageiro, que é tudo, do amanha cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa. A partir dai, uma tristeza muito particular se instala. A tristeza feliz. A tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tao raros. Os encontros verdadeiros prescindem de palavras, eles realizam em cada pessoa, a parte delas que se sublimou e ficou pura. É esta certeza, a da perda, que provoca aquela lágrima ou aquela angústia que se instala após os verdadeiros encontros. Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um "E agora?" após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Disso só se salva quem se cura, ou seja, quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser. 

Uma história de muitos encontros e desencontros, de perdas marcadas por cicatrizes eternas, de medos profundos de acreditar que a vida pode recomeçar e o principal, da cura através da morte e da vida.

Deixo para reflexão, uma pergunta: Qual é a sua estrela mais brilhante do ceú? Aquela que já se foi ou aquela que ainda está esperando sua vez de chegar?

Boa leitura!