segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os Infortúnios da Virtude (Marquês de Sade)

Donatien Alphonse François, também conhecido como 'o espírito mais livre que já existiu', mais conhecido como 'Marquês de Sade', escreveu anonimamente 'Os Infortúnios Da Virtude' ou 'Justine' em 1787 durante apenas duas semanas, enquanto preso na Bastilha sob as acusações de sodomia e envenenamento, sofrendo de uma infecção ocular. Editado e publicado em 1791, o livro foi o motivo de mais uma prisão do Marquês, ordenada pessoalmente por Napoleão Bonaparte, que classificou a obra como 'o livro mais abominável já concebido pela mais depravada imaginação'.

O livro foi escrito em forma de novela romântica, mas, apenas pela introdução acima, já dá pra imaginar que não era mais outra novela romântica escrita na França Revolucionária. A trama, uma introdução à saga das irmãs Justine e Juliette, a primeira uma beata virtuosa, a segunda uma libertina manipuladora, foi censurada por aproximadamente 160 anos e ainda hoje recebe opiniões mistas pelas comunidades acadêmica e literária. Os críticos dizem que é uma obra apelativa e escrita com óbvia falta de talento. Realmente, o Marquês não inova muito na forma, e provavelmente não chocará o adolescente médio contemporâneo que possua uma conexão com a internet, mas, deixando de lado o pensamento conservador ou anacrônico, em uma época dominada tanto pela filosofia iluminista quanto pela moral cristã, um livro que consegue atrair o ódio de ambas as partes e ser paranoicamente censurado por várias eras merece um pouco de crédito.

A narrativa tem como protagonista a menina Justine, que se separa de sua irmã após as duas serem enxotadas do internato de freiras que viviam em decorrência do assassinato do pai, sob o argumento de 'se tornarem um problema'. Vagando pela França pré-revolucionária, Justine se agarra firmemente à sua ética e seus valores religiosos que aparentemente só a trazem problemas e a impedem de agarrar a solução óbvia para os mesmos. A história é narrada pela própria Juliette a um casal de nobres que a veem sendo levada à forca por um grupo de guardas,e ordenam uma pausa na jornada do grupo para ouvirem o porquê daquela 'bela menina de feições puras' estar numa situação como aquela. Entre seus algozes, há desde bandidos de estrada até nobres e sacerdotes da Igreja Católica, nenhum grupo social ou econômico escapa dos relatos do egoísmo e da perversão que vitimam Justine, uma bela órfã, sozinha e dócil, sem qualquer capacidade de defesa e, portanto, vítima mais que natural daqueles que desprezam o pobre e humilham o fraco por puro orgulho, induzindo o leitor à cruel conclusão de que num mundo corrompido e hipócrita, aquele que é verdadeiramente virtuoso terá uma vida inevitavelmente desgraçada e injusta.

Tendo uma premissa aparentemente simples, o livro segue algumas ideias hobbesianas, totalmente em contramão ao otimismo iluminista e aos dogmas católicos, além de ter algumas sugestões a ideias semelhantes àquelas do marxismo e da escola existencialista de filosofia, que só viriam a se concretizar nos próximos séculos. Dando uma rápida lida em sua biografia, é fácil perceber que Sade era um crápula sob vários ângulos (essa é a hora de dizer que o termo 'sadismo' é uma "homenagem" ao Marquês), mas seria injusto não reconhecer este autor como uma personalidade ousada e um visionário. Leitura muito recomendável para quem se interessar em literatura marginal e obras historicamente censuradas.