segunda-feira, 28 de julho de 2014

Perfume - Patrick Suskind

"Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas"

Todas as vezes que me posto em frente ao meu notebook para escrever sobre um livro, meus dedos iniciam um trabalho insano de palavras, que só consigo parar quando o texto já está no final, porém desta vez, me peguei encarando a tela e refletindo milhões de vezes como vou me expressar sobre um livro de extrema dificuldade. O entendimento de uma alma mergulhada nas trevas, como a de Jean - Baptiste Grenouille, o protagonista desta magnífica obra, com certeza, me deixou marcas profundas de desespero, aflição, agonia e cheiros. Sim, a sensação olfativa é tão absurda, que juro por tudo que considero mais sagrado, que pude sentir cheiros a cada vez que abria o livro de Patrick Suskind.

O livro começa com a narrativa do nascimento de Grenouille. As palavras são elaboradas para criar o maior impacto possível no leitor, pois exala uma sensação extrema de nojo. A profusão de detalhes, minúcias, enriquecidas pelas associações olfativas e visuais de sua vinda ao mundo, já anuncia aquilo que com a leitura, vai formar a personalidade perturbadora de um assassino. Grenouille já nasce arrastando consigo uma morte, a da própria mãe. Nosso protagonista se despede de qualquer sentimento de amor, solidariedade, fraternidade e tudo que se relacionar ao altruísmo, para viver apenas dentro de seu universo, que gira em torno de uma fantasia surreal. Grenouille não possuí cheiro nenhum, mas em compensação ele cheira absolutamente tudo de uma forma um tanto quanto excêntrica.

Sua ausência de odor, numa sociedade onde o banho não fazia parte dos hábitos de higiene diários, o torna anormal perante algumas pessoas, que chegam até o apelidar de "ser proveniente do demônio". Essa característica perturbadora o torna um ser excluído da sociedade, pois ele se torna completamente desapercebido por onde passa.

O mais perturbador da história não é sua falta de odor, e sim as pessoas que passam pela sua vida, que voluntariamente ou não, contribuem para o desenvolvimento de sua alma assassina. Eles sofrem uma especie de castigo, talvez por terem contribuído para a propagação do mal, personificado na pessoa de Grenouille.

O primeiro contribuinte é a mãe de Grenouille, que o carrega no ventre por nove meses e paga com a vida o fato de ter gerado um monstro. A segunda contribuinte é Madame Gallard, dona de um orfanato onde Grenouille vive boa parte de sua infância. Madame Gallard foi vitima de maus tratos na infância e devido a um acidente, perdeu o olfato e com isso não identifica a falta de odor em Grenouille.

No livro, fica muito claro que a capacidade de afeto e olfato estão intimamente relacionados, então somos levados a crer que Madame Gallard não consegue se afeiçoar por nenhuma criança do orfanato justamente pelo fato de não conseguir cheira-las. E é justamente aqui que começamos a entender como Grenouille se sente: um ser que não era amado e nem estimado por ninguém, simplesmente por não possuir cheiro.

O castigo de Madame Gallard é o de terminar seus dias de uma forma completamente oposta aquilo que seria o seu desejo: a morte misera e precária dentro de um hospital publico após uma longa e próspera vida.

O terceiro contribuinte é Grimal, o curtidor de peles que Grenouille trabalha como escravo. Grimal utiliza mão de obra infantil composta por órfãos e os deixa a mercê de contaminações e infecções contraídas pelo contato com animais em decomposição e com os vapores corrosivos utilizados para o tratamento de peles. Grenouille possui uma notória resistência a tudo isso e é considerado extremamente valioso, sendo assim vendido ao perfumista Baldini. Já Grimal, sofre um estranho acidente após a venda de seu mais valioso órfão.

Com Baldini, Grenouille aprende tudo sobre o oficio de um perfumista, se tornando não só um verdadeiro mestre na criação de odores, mas cada vez mais próximo de seu único objetivo de vida: ele deseja poder exalar o odor das pessoas que o fascinam, o carisma que lhe foi negado a nascença.

Voltando a Baldini, este vê todos seus sonhos literalmente desmoronarem quando Grenouille o abandona. Mais um castigo...

A trajetória assassina de Grenouille se inicia quando ele percebe um cheiro inusitado, que vem de uma belíssima jovem ruiva. Surge-lhe então uma ideia: ele quer aquele perfume para si. Ele quer inspirar o amor, a adoração nos outros através do cheiro natural que aquela jovem emana. Ele então, a mata com o único intuito de se apoderar de seu perfume. A partir daí, o que vai guiar sua vida é conseguir extrair o perfume, a essência da beleza no seu estado mais puro e como consequência conseguir a submissão da humanidade. Ser um Deus glorificado por todas os seres vivos através do odor.

Aqui estamos falando somente da primeira parte do romance (eu disse que seria complexo falar sobre esta obra). Na segunda parte, temos um tempo muito longo onde Grenouille se isola da humanidade por 7 derradeiros anos, onde pela primeira vez percebe que ele próprio não possui odor. Um encontro com si mesmo em uma terapia de choque, o isolamento de todo possível odor humano o faz perceber que ele não é como todos. Então, resolve retomar seu grande objetivo e volta a civilização, onde se encontra com o lunático Marquês Tallade- Espinasse, um pesquisador que procura a confirmação para uma extravagante tese sobre um suposto elixir para a vida eterna. Mais um contribuinte que acaba morrendo congelado nos Alpes imediatamente após a partida de Grenouille.

Na terceira parte do livro, Grenouille inicia então, a real jornada para a execução do seu grande plano. Nesta fase, ele conhece Madame Arnulfi, uma artisan parfumeur, que o ensina como extrair odores de flores. Grenouille encontra o que necessita e passa a matar obsessivamente os seres belos para lhes extrair essa mesma beleza e utiliza-la depois como instrumento de vingança contra a humanidade, que sempre o excluiu por ser destituído dessa mesma beleza odorífera.

O ingrediente principal do seu grande perfume é Laure, a moça mais bela da região, cujo odor deixou Grenouille completamente obcecado. O pai de Laure, Richis, acaba por meio de um insight prevendo que a última vitima do assassino de belas moças, seja sua filha. Ele não entende o porque dessas mortes tão horrendas, mas por um erro de calculo, acaba facilitando os planos de Grenouille, e este consegue realizar o seu grande feito e cria assim, o melhor perfume do mundo.

Aqui, entro no momento mais inebriante do livro, a cena mais surreal que já visualizei: Grenouille é pego pela policia e sua pena é ser castigado como Jesus foi na cruz em plena praça publica, visto por centenas e milhares de pessoas. Aqui deixo uma pergunta: Não era assim que ele imaginava seu objetivo final? Ser conclamado como Jesus Cristo?

Voltando a cena, neste momento Grenouille derrama sobre si uma singela gota de sua criação, a junção da essência de 25 jovens deslumbrantes, e todas as centenas e milhares de pessoas iniciam uma gigantesca orgia, desencadeada pelo sortilégio do perfume, que enlouquece a todos, os envolvendo em uma luxuria e erotismo sem igual.

Neste momento, Grenouille percebe que nunca será amado por si mesmo, mas apenas quando estiver em posse do perfume divino. Compreende então, sua verdadeira essência: sua satisfação não está no amor, mas no ódio. Ele então, toma a mais controvérsia decisão: morre por obra de sua própria criação mais perfeita: uma morte desencadeada por excesso de paixão. Grenouille morre através do canibalismo, onde pessoas o comem por estarem inebriadas com seu cheiro. E a última frase do livro é: "Pela primeira vez fizeram algo por amor".

Acredito piamente que quem leu esta resenha até o final está sem saber o que pensar, prefiro não dizer muito, pois como Grenouille, a graça e a busca do entendimento está no sentir e não no falar. Sinta como eu, essa força sobrenatural da busca incessante pelo auto conhecimento e da necessidade sobre humana de amar e ser amado.

Uma obra magnifica sem descrição. Estou estupefata pelo inebriante cheiro da aceitação.
Definitivamente o melhor livro que li em minha vida.

Deixo aqui uma das melhores citações da obra:

"...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração - ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas"

Para quem se interessar, o livro foi submetido a imagens no belíssimo filme de Tom Tykwer (Perfume - A história de um assassino) gravado em 2006. Deixo aqui o trailer, mas aconselho seriamente a não viverem sem ler esta obra, e também sem deixarem de ouvir sua extravagante trilha sonora. Uma viagem a essa história altamente qualificada em criatividade e busca por incessantes respostas.