segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Como eu era antes de você – Jojo Moyes


"Não pense muito em mim. Não quero que você fique toda sentimental. Apenas viva bem. Apenas viva."

Um dos meus programas prediletos aos finais de semana é tomar uma boa garrafa de vinho acompanhada de papos cabeça e muitas histórias reais contadas por amigos e conhecidos. Neste último sábado, por coincidência ou não, ouvi relatos de falta de dinheiro, medo de se entregar a paixões desenfreadas e muita, muita vontade de viver a vida de uma forma diferente, literalmente sendo outra pessoa.

Foi através desses diálogos que finalmente tive coragem de sentar e escrever sobre o livro que teve a pachorra de me arrancar lagrimas tão sinceras, que quase achei que teria que levar essa reação a um divã, de tão real e comovente que a história me pareceu. Desculpem-me os céticos que acham que chorar lendo livros é um tanto quanto "ser sentimental demais", mas acredito que após ler essa resenha, farei os não tão crentes também proclamarem por alguns sinais de sentimento.

No "Como eu era antes de você", entramos no universo um tanto quanto complexo de Louisa Clark, que com apenas 26 anos não tem para si muitas ambições na vida. Ela mora com os pais, um sobrinho fruto de um caso "não planejado" da irmã mais nova e um avô que precisa de cuidados constantes desde que sofreu um derrame. Ela trabalha como garçonete em um simpático café em Bishop´s Stortford (uma cidade comercial histórica e paróquia civil do distrito de East Hertfordshire no condado de Hertfordshire, na Inglaterra). Pela cidade, já podemos imaginar que não se tem muito que fazer por lá, como retrata o livro, há apenas um ponto turístico interessante, o castelo Stortfold, onde fica abarrotado de turistas com suas máquinas fotográficas, arrancando relatos de forma contundente. Louisa namora há 7 anos um triatleta, Patrick, que não parece e não é muito interessado nela, ele literalmente olha o tempo todo para seu umbigo másculo e com 0% de gordura. 

Do outro lado do castelo, temos Will Traynor, de 35 anos. Ele é lindo, inteligente, extremamente rico e bem sucedido. Mora em Londres e vive uma vida repleta de aventuras. E quando falo aventuras, é no sentido literal: saltos de paraquedas, nado com baleias, viagens ao centro da terra e por aí vai. Um belo dia Will sai para trabalhar, depois de acordar ao lado de uma belíssima mulher (fato que acontecia com muita frequência em sua vida) e decide que não vai ao trabalho de moto, pois está chovendo de forma demasiada. E pela ironia (ou não) do destino, uma motocicleta o atropela, deixando-o tetraplégico e com apenas um pequeno movimento na mão direita. 

Falando em ironia do destino, após dois anos do acidente de Will, nossa grande heroína desta história é demitida do simpático café, e sem saber o que fazer de sua vida, encontra a oportunidade de ser cuidadora de um tetraplégico, que até aqui, vocês já sabem de quem se trata. É desta maneira que seus destinos são cruzados, e como a própria Louisa gosta de dizer: "essa é a história de duas pessoas que não deviam se encontrar e que não gostam muito um do outro quando se conhecem, mas que acabam descobrindo que eram as duas únicas pessoas no mundo que podiam se entender". 

Não é uma história de amor, e sim uma história sobre resgate. Explico o porquê:

Will não vê sentido em absolutamente mais nada, tanto que ele possui um plano. Em 6 meses ele irá encerrar com sua jornada de vida, se suicidando por livre e espontânea vontade na Suíça, em um lugar chamado "Dignitas". Sim caros leitores, existe um lugar que permite que em comum acordo e com justificativas plausíveis você pode acabar com sua própria vida. Quando Louise descobre os planos de Will, ela inicia uma jornada intensa a procura de motivos para que ele não coloque seu plano em prática. 

Nesse meio tempo, através dos milhares de programas que Louisa leva Will para mostra-lhe que vale a pena ainda viver, nos deparamos novamente com a ironia do destino. É Will na verdade quem ensina Louisa o tempo que ela está desperdiçando não vivendo a própria vida. Descobrimos que Louisa tem sua cota de dor, quando em um dos momentos que considero mais verossímil deste livro, a mesma aborda um estupro que sofreu de 4 homens quando ainda era uma garota. 

Esta obra abriga um grande debate sobre o fio tênue entre a vida e a morte. Você é a favor da pena de morte? Se sim, é a favor também da morte compactuada? 

Eu admito que fiquei extremamente boquiaberta quando todos da família de Will aceitam sua vontade em se matar na Suíça. Pensei como Louisa: "Que absurdo permitirem algo do tipo". Porém, ao ler o livro passei a enxergar o outro lado da moeda. Como seria viver sem poder tocar a pessoa que amo? Sem poder desfrutar do prazer de fechar os olhos e sentir que tudo dentro de mim funciona de forma completa? De poder andar sentindo a areia no meio dos meus dedos? De abrir os braços e sentir o vento entrar pelas partículas do meu corpo? De poder sentir a pele eletrizar quando alguém me desse um abraço? De poder enxugar minhas próprias lagrimas quando eu esmorecesse? Como é viver a vida sem sentir tudo isso? 

Não sei se sou a favor ou não de tal ato (preciso refletir muito ainda a respeito), mas consigo ao menos enxergar 10% dos bons motivos em se desejar algo do tipo. Independente da opinião de cada um, o que mais me chamou a atenção, foi que quem se sentia preso não era Will, apesar de literalmente estar eternamente fadado a ficar naquela cadeira de rodas. Quem é o prisioneiro de verdade, é Louisa. Ela aprende com Will a conclamar ambições, a descobrir do que ela é capaz, a de colocar para fora uma pessoa sedenta por novas sensações. 

Will faz a melhor das declarações de amor que vi em meus 28 anos de vida: "Durante algum tempo, você vai se sentir pouco a vontade em seu novo mundo de descobertas. É sempre estranho ser arrancado de sua zona de conforto. Você tem ambição e quem tem ambição, tem tudo. Você apenas escondeu essas qualidades, como todo mundo. Não seja igual a todo mundo". 

Se eu pudesse escolher entre ouvir isso ou um "Eu te amo", eu escolheria a primeira opção. Will deu o maior presente que alguém poderia dar a uma pessoa: ele deu a chance de Louisa olhar para dentro de si e se salvar de seus próprios medos. Ele deu a ela a dadiva da vida, em troca ela deu a ele a dadiva da escolha. Eles mais que se amaram, eles se resgataram (eu disse que não era uma história de amor). 

Paulo Coelho uma vez disse "Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.” 

Depois de ler essa resenha, você ainda acha que o destino é tão irônico a ponto de nos enviar provas para concluir definições daquilo que tentamos ver todos os dias no espelho? Você ainda quer ser outra pessoa?

Quando li esta obra, semeei pelo final, para que eu mesma pudesse entender o que sou e para onde o universo ironiza meu destino.