terça-feira, 12 de agosto de 2014

Deixe a neve cair – John Green, Maureen Johnson e Lauren Myracle


"Sei que deve ser uma experiência muito ruim para você, mas acredito em milagres. Sei que parece brega, mas eu acredito."

Você gosta de matemática? Lembra-se daquelas expressões, onde no final, depois de somar, subtrair, dividir ou multiplicar, você obtém o valor exato de X? Acredito que nos acostumamos com isso, e achamos absolutamente normal encontrar um valor ausente através de um pouco de método e lógica, mas eu particularmente acho essa linguagem fantástica. E é a mesma matemática absurda que permite a criação de computadores, submarinos, naves espacial, satélites e por aí vai. Essa, em minha opinião, é apenas uma descoberta casual do homem.

É apenas na lógica que abrigam todas as respostas aos conflitos existenciais do ser humano? A matemática e a lógica transcendem a existência racional, e dá lugar há algo muito mais misterioso e sem a menor explicação, pelo menos até o presente momento: o acaso. O velho ditado "Nada é por acaso" tem um quê de romantismo, contudo, não é possível que esse mundo seja conduzido apenas de acasos. As pessoas se acostumaram com o mundo como ele é, assim como aceitam fatos incompreensíveis da vida como fatalismo, mas eu me nego a acreditar nisso. Vejo o mundo de forma grandiosa, até mesmo a nossa natureza limitada, porém livre, que nos força a superar nossos próprios limites, tanto como indivíduos, como em coletividade. Torço para que essa mesma coletividade não demore muito para compreender, finalmente, a grandeza da vida e a inteligência divina na qual vivemos imersos.

Iniciei desta maneira para falar sobre um livro que abriga justamente o mistério do acaso. “Deixe a neve cair” é um livro colaborativo, que reúne três contos que se passam durante uma nevasca natalina, e de certa forma, se cruzam em determinado momento formando uma única história. Não são simples histórias fantásticas de acasos no período mais altruísta do ano, mas sim, histórias de amor adolescente, recheados de misticismo e encontros interiores dignos de um espetáculo de cinema.

A primeira história (O Expresso Jubileu) escrita por Maureen Johnson, fala sobre Jubileu, uma adolescente de 16 anos portadora de um nome bem esquisito. Na véspera de Natal, ela é obrigada a pegar um trem para a casa dos avós, na Flórida. Obrigada porque seus pais cometeram um "pequeno" deslize natalino e foram parar atrás das grades. Claro que sua viagem não seria tão emocionante se o trem não atolasse no meio de uma nevasca, e ela se encontrasse cercada por um bando de cheerleaders insuportáveis e longe de seu namorado perfeito, que comemoraria com ela um ano de namoro no dia do Natal. Drama concluído, Jubileu em um momento de fúria extremada, resolve sair do trem e caminhar na neve até uma Waffle House, e é lá que conhece seu acaso: Stuart. Um simpático rapaz que muda literalmente seu caminho, e a faz refletir sobre aceitação. Quem nunca se contentou com migalhas? Jubileu namora um rapaz egoísta, que só possui tempo para si próprio, e sua importância em relação à namorada é nota dez negativo. Aqui vai minha primeira pergunta: Todo este drama precisava acontecer desta maneira para que Jubileu aceitasse sua condição, e tivesse a possibilidade de mudar sua história através de uma nova chance para si própria? Qual expressão matemática caberia neste caso? Subtração, certo? Tirar um para obter um melhor resultado no final.

O segundo conto escrito pelo aclamado John Green (O Milagre da Torcida de Natal), apresenta três personagens: Tobin, JP e Duke (a única menina do pequeno grupo). O trio de amigos está disposto a tudo por um pouco de diversão, afinal de contas, quem gosta de passar a véspera de Natal preso em casa por causa de uma nevasca assistindo a toda coleção de DVDS do James Bond? A emoção começa quando Tobin recebe uma ligação de seu amigo Keun, coordenador da Waffle House, alertando os amigos de que a nevasca paralisou um trem a caminho da Flórida, e a lanchonete está repleta de cheerleaders. Tobin e JP logo se animam e carregam Duke, que apesar de achar tudo uma babaquice adolescente, só consegue pensar nas batatas rosti que vai comer ao chegar à Waffle House. O conto basicamente fala sobre a saga do trio para chegar à lanchonete, dirigindo e caminhando no meio da neve pesada, enquanto tentam sobreviver aos outros valentões que têm o mesmo objetivo dos garotos. No meio desta aventura, o acaso chega de forma tímida para Tobin e Duke, que descobrem um sentimento mútuo um pelo outro, porém escondido pelas amarras da amizade. Então aqui vai minha segunda pergunta: Era necessário um carro quebrado, um par de pernas congelando e uma fuga articulada de policiais para que duas pessoas descobrissem que amam uma a outra? Se não fosse este episódio, os dois seguiriam seu caminho longe um do outro? Eu diria que a expressão matemática que melhor se encaixa neste caso é a soma. Tobin e Duke aprenderam nessa jornada a somar uma grande amizade, e a descoberta de um amor adormecido resultando em uma parceria perfeita.

O terceiro e último conto (O Santo Padroeiro de Porcos) escrito por Lauren Myracle, fala sobre Addie, uma adolescente deprimida pelo fim de seu relacionamento com Jeb. O fato, é que durante o conto descobrimos que Addie é uma menina egocêntrica, que mete os pés pelas mãos muitas vezes, mas está disposta a mudar isso e quer mostrar essa mudança a todos que conhece. Tudo começa quando Addie quer mudar o namorado e o acaba traindo com Charlie, porque acha que seu protótipo de perfeição nunca vai existir. Quando sua ficha começa a cair de que a perfeição não existe nem no outro e nem dentro dela, ela pede para que Jeb a encontre em seu local de trabalho, porém o mesmo está dentro do trem que estava indo a Flórida, e ele não consegue comunicação com sua amada para explicar que está preso em um Waffle House devido a uma forte nevasca. O que Addie logo entende é que seu ex-namorado não vai aparecer e muito menos a perdoar pelos seus erros, e o drama todo parte daí. Suas melhores amigas a consolam e a forçam a enxergar que seu egocentrismo têm que acabar, e então uma delas lança um desafio à amiga: ela comprou um mini porquinho chamado Gabriel e pede a Addie para busca-lo no primeiro horário em uma loja que fica a apenas um quarteirão do seu local de trabalho. Claro que Addie não consegue cumprir sua missão, mais uma vez por só pensar em si própria e nos seus problemas, quando o acaso lhe coloca uma senhora em sua vida, que diz uma das melhores frases do livro: “Não é o que o universo nos dá que importa. É o que nós damos ao universo". Desta maneira Addie percebe todos os erros cometidos até então e alcança a redenção e a compreensão de que o problema externo na verdade estava o tempo todo habitando o seu interior. Minha terceira e última pergunta: É na dor que aprendemos a nos enxergar verdadeiramente e buscar a melhoria de nossos atos perante o coletivo? Neste caso eu diria que Addie usou da divisão matemática para aprender que nem tudo gira em torno de si própria, às vezes é necessário sair de dentro da caixa para conseguir enxergar o outro.

Neste caso só faltou à multiplicação, então convido a você leitor, que multiplique estas pequenas histórias para a sua vida e a dos outros que conhece, até porque, não temos que esperar que só o acaso trabalhe ao nosso favor. Nós também podemos enxergar em nós próprios nossas expressões matemáticas e somar, subtrair, dividir e multiplicar nossos atos a nosso favor e da sociedade que vivemos. Está esperando o que para achar o seu resultado perfeito?