sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O ladrão do tempo – John Boyne



"O tempo é um ladrão impossível de apanhar."

Você já se pegou pensando como seria viver por 256 anos? Em o Ladrão do Tempo embarcamos em uma jornada fascinante de um personagem anti heroico, Sr. Zéla, ou como ele mesmo prefere ser chamado depois de dois séculos vividos, "Mattieu apenas, por favor".

A trama começa contando como Mattieu nasceu e perdeu seus pais ainda muito novo. Na romântica Paris, em 1743 durante a dinastia Bourbon, nasce nosso protagonista, filho de Jean e Marie Zéla. Jean morreu quando Mattieu tinha apenas 4 anos de idade, mas não pense que ele morreu lutando bravamente em uma guerra. Nada disso, ele foi simplesmente arrebatado por um objeto pontudo que acertou sua nuca, o derrubou no chão e uma lamina grossa atravessou sua garganta. Quem foi o responsável pelo terrível assassinato? Não se sabe, era muito comum naquela época atos de violência pelas ruas charmosas de Paris, assim como também uma justiça igualmente arbitrária. Marie se casou outra vez, com um ator chamado Philippe Dumarqué. Com mania de grandeza e uma forma um tanto quanto terrível de lidar com as problemáticas da vida, Philippe espancou impiedosamente Marie até sua morte em 1758. Deste casamento nasceu Thomas, o meio irmão de Mattieu, que acaba se tornando sua responsabilidade no decorrer de seus primeiros anos vivendo forçadamente como um adulto.

Depois do julgamento de Phillippe e seu consequente fim em uma execução em praça pública, Mattieu e seu meio irmão embarcam em um navio rumo a Dover, e é onde nosso anti herói conhece o seu primeiro e grande verdadeiro amor: Dominique. Juntos, eles passam por diversas situações, e Mattieu vai aprender desde muito novo importantes lições sobre amor, traição, amizade e responsabilidade.

Quando Mattieu atinge 50 anos de idade, ele percebe que não envelhece mais fisicamente, e isso o permite acompanhar diversas gerações problemáticas de seu meio irmão Thomas, conhecer muitos tipos de amor, e passar por diversos cargos e empregos, e até mesmo conhecer figuras públicas conhecidas de todo leitor que embarcar nessa jornada de mais de 200 anos de história. Prepare-se para ao longo da narrativa vivenciar fatos e personagens históricos envolvidos de uma forma ou de outra na vida de Mattieu. Enquanto você folheia as páginas, será normal, por exemplo, acompanhar Mattieu trocando amenidades em uma festa com Charles Chaplin ainda jovem buscando sua fama já conhecida por nós na atualidade.

Porém, o livro não se trata de uma lição de história, e sim sobre a principal questão não compreendida pela nossa humanidade em pleno século XXI: pessoas. A obra aborda todas as milhares de pessoas que conviveram com Mattieu e o que estas lhe causaram como efeito. 256 anos são muitos anos para se conviver com especies muito distintas de pessoas.

Existem milhares de personagens neste livro, mais tentarei de uma forma sucinta resumir a obra sendo justa e objetiva: Com uma vida tão duradoura, você esbarra em incontáveis tipos de gente. Mattieu conhece sujeitos honestos e trapaceiros, homens virtuosos que tiveram um único momento de insanidade arrebatadora, porém suficientes para leva- los direto a ruína, e canalhas mentirosos cujos únicos atos de generosidade ou integridade lhe abriram caminho para a salvação. Assassinos, carrascos, juízes e criminosos, trabalhadores e preguiçosos, homens cujas palavras impressionaram e levaram outros a agir, convicções em princípios que ascenderam faíscas de luta e mudanças por direitos básicos do homem, charlatões que leram discursos que não escreveram, homens que proclamaram grandes ambições mais falharam em executa- las, homens que mentiram para suas esposas, mulheres que traíram seus maridos, pais que insultaram seus filhos, descendentes que amaldiçoaram seus ancestrais, bebês nascendo e adultos morrendo, pessoas que precisavam de ajuda e aquelas que Mattieu matou por necessidade. Ele conheceu todo tipo de homem, mulher e criança. Todas as facetas da natureza humana nas terras deste mundo vasto. E ele observou, escutou, absorveu palavras, testemunhou fatos e se distanciou de todos eles com nada mais que suas próprias lembranças para traduzi las de sua cabeça para as paginas deste livro.

Sim, o livro é a forma que Mattieu encontrou para contar sua história e deixar registrado que possivelmente foi e será a única pessoa a atravessar tantos e tantos anos de vida. O curioso é que o próprio Mattieu não entende porque foi abençoado ou amaldiçoado com a vida eterna, ou a síndrome do Peter Pan, se vocês preferirem classificar assim.

O livro é dividido em três fases, que ficam intercalando entre si o tempo todo. Enquanto em um capítulo acompanhamos Mattieu adolescente, no outro vivenciamos suas viagens, seus casamentos fracassados, seus empregos, sua fase adulta e depois ele na atualidade que conhecemos. Tudo isso vira uma junção do que será incumbido para ser o seu futuro. Mattieu possui um carma que vamos entendendo ao longo da leitura: ele nunca consegue se desvencilhar das gerações Dumarqué, sempre que um de seus sobrinhos, que estranhamente carregam o mesmo nome: Tommy ou Tomas, engravidam uma mulher, o bebê homem nasce e o pai morre de forma trágica, e Mattieu paralelamente, nunca consegue manter um casamento, pois também estranhamente uma tragédia acontece levando embora suas escolhidas como companheiras mesmo que a curto prazo, visto que ele não envelhece e consequentemente também não morre.

Na atualidade Mattieu quer mudar o padrão e não ser mais o ladrão do tempo, mais sim permitir que o tempo não seja um ladrão impossível de apanhar. Ele resolve não deixar que uma tragédia aconteça com seu atual sobrinho dos anos 90: o novo Tommy. Não vou entregar o final, mais garanto que nos últimos respingos do livro, um fio branco aparece no cabelo de Mattieu. Seria essa talvez, a salvação? Deixo a mercê da leitura de vocês descobrir a resposta nessas fantásticas 561 páginas.

John Boyne conseguiu trabalhar com assuntos importantes como o valor das pessoas na nossa vida, como nossas atitudes podem gerar consequências boas ou ruins, como o amor pode ser algo traiçoeiro e como a família é uma parte importante na vida de um ser humano. Cada ponto é discutido de uma maneira muito simples, direta e com palavras concretas.

No fim, todas as histórias e todas as pessoas se fundem em uma só. Tem aqueles que não acreditam no destino e na forma como os caminhos são postos na nossa frente. Não sou uma ladra do tempo que poderia convir com uma afirmação destas, mas sou uma aluna do tempo, uma aluna que teve que repetir de ano algumas vezes para aprender que o relógio existe para ensinar que cada segundo, minuto e hora tem relativa explicação para passar rápido ou devagar, para colocar e tirar algumas pessoas de nossa vida, para nos fazer rir e chorar na hora exata, para explicar situações tristes e carregadas de dificuldades, para provar que tudo tem hora para acontecer, seja o bom ou o ruim, e para nos mostrar que a cima de tudo, somos donos do nosso próprio tempo e quem faz dele a duração perfeita somos apenas nós.

Como já dizia Abu Shakur: "Talvez o tempo te ponha na sua escola, pois não terás melhor professor que ele".