sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sushi – Marian Keyes

 
"Soube então, que a vida não respeitava circunstâncias...A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade!"
Aquele velho e conhecido clichê de "A vida é uma caixinha de surpresas", passou mais uma vez em minhas mãos ao ler o livro da minha atual autora preferida, Marian Keyes.

Para melhor ilustrar a ideia, vou falar primeiro dos personagens que compõe está instigante história: Lisa Edwards é uma durona e sofisticada editora de revistas, que acha que sua vida acabou quando descobre que sua tão esperada promoção profissional não é gerenciar uma revista de grife em Nova York, e sim encarar a missão de lançar uma revista chamada "Garota" na pacata e sem noção cidade de Dublin.

Para compor a história de Lisa, temos Ashling Kennedy, a editora assistente da "Garota". Extremamente ansiosa, possui um passado familiar um tanto quanto perturbador. Sua melhor amiga, Clodagh, tem tudo o que uma garota sonha em ter, casada com um homem lindo e cobiçado, têm dois filhos encantadores e vive dentro de seu castelo de contos de fadas particular, sendo extremamente invejada por todos, menos por ela mesma, que acha que sua vida não passa de uma pacata rotina sem aventuras e sem nada de emocionante para fazer e sentir.

Aí você deve estar se perguntando porque raios o livro leva o nome de "Sushi". Em determinado momento da história, em um momento de grande agitação, eu diria, ocorre o seguinte dialogo:

"- Hoje eu vou querer uma coisa um pouquinho diferente para o almoço - disse Lisa a Trix.
 - É alguma fruta que você quer?
 - Gostaria de comer sushi.
 A sugestão era tão repugnante que deixou Trix sem fala.
 - Sushi? - disparou, por fim, horrorizada. Quer dizer, peixe cru?"

O alvoroço é tanto, que o sushi vira uma mística metáfora para posteriormente nossas três protagonistas encontrarem em suas experiências a tão cobiçada felicidade.

Já li muitos livros de Marian Keyes e diria que esse é o menos cômico de todos. Em minha opinião, a sensação é que deve ter sido um de seus primeiros livros, e sua real identidade como autora veio muito tempo depois com suas outras obras, que sempre carregam uma característica de humor ácido junto com historias de vidas de mulheres surpreendentemente parecidas conosco. Mais não posso negar que Sushi tem sua cota de peculiaridade quando têm como objetivo mostrar que nem sempre as coisas saem da forma que imaginamos, mas no final das contas carregam em si o real aprendizado para uma vida de fato realizada.

Lisa vê em sua mudança para Dublin e seu divórcio com seu ex marido a chance de se tornar uma pessoa menos mesquinha, mais sensível e capaz de enxergar nas pequenas coisas o que realmente faz a diferença no dia a dia, como por exemplo, a valorização do amor de uma mãe e de um pai, de um companheiro e o quanto cada peso e medida devem ser compostos de forma equilibrada quando falamos de vida pessoal e profissional. Já Ashling não possui amor próprio nenhum, e aprende com dois relacionamentos fracassados que querer ser outra pessoa não vai a levar a lugar nenhum. As vezes o amor pode se encontrar em lugares que nem fazíamos ideia de que estaria lá. De mais a mais, já é o segundo livro da autora que aborda o tema depressão. Ashling possui uma mãe que sofreu muito tempo da doença e a mesma cresceu de forma traumática, descobrindo em sua própria depressão anos depois o significado da verdadeira redenção. A vida é mesmo uma figura engraçada, concordam?

Por fim e não menos importante (alias, em minha singela visão, a personagem mais importante do livro), temos Clodagh e sua crise existencial por levar uma vida tão insignificante, e carregar o peso de ser invejada por todos aos seu redor porque simplesmente ela parece perfeita, quando na verdade seu interior grita constantemente pela busca de algum sentimento verdadeiro.

James Baldwin costuma dizer que "O amor arranca máscaras sem as quais temíamos não poder viver e atrás das quais sabemos que somos incapazes de o fazer".

Sushi não só mostra como nada na vida nos acontece por acaso, como também prova que todos somos seres suscetíveis a entrar em colapso nervoso. Até aquela pessoa que parece ser a mais perfeita à que parece a mais problemática, podem sim se enfiar debaixo de uma coberta e não querer sair nunca mais para encarar a dura e modesta vida lá fora. Aí eu me pergunto, você que está lendo essa resenha, quem nunca passou por isso? Eu já quis esquecer meus problemas e viver o resto da minha vida protegida no meu edredom macio e fofinho.

A vida não respeita nossas circunstâncias, ela faz o que têm vontade, chega sem hora marcada, mas deixa uma enorme sensação de dever cumprido. Esse visitante que mais parece um intruso, nos traz presentes que se auto intitulam de oportunidades.

Fica a dica: aceite esse presente, porque mesmo que ele não pareca a primeira vista aquilo que você queria ganhar, ele pode ser bem útil no futuro, eu diria até que indispensável.
Boa leitura!