sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Cheio de Charme – Marian Keyes


"Os grandes feitos são conseguidos não pela força, mas pela perseverança." 

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Iniciei a resenha desta maneira, para abordar um tema muito delicado.

Podem me chamar do que quiser, mas sou uma fã invicta dos livros da Marian Keyes. A autora sempre aborda temas polêmicos através do humor branco e negro. Quando peguei o Cheio de Charme na mão, não fazia ideia do que se tratava, e entrei tão profundamente na história que não pude deixar de sentar em frente ao computador e respirar dezenas de vezes para fazer de minhas palavras jus a tantas mulheres que já passaram ou passam por uma situação onde perdem toda sua dignidade em nome de um sentimento que acham que seja o amor.

O livro é composto de 800 páginas narrado em primeira pessoa por quatro mulheres: Lola, Grace, Marnie e Alicia. Cada capítulo é dedicado a uma delas de forma alternada, não fazendo muito sentido no inicio, mas posteriormente indicando que as quatro personagens possuem uma ligação em comum: Paddy De Coury, um charmoso e mulherengo político da Nova Irlanda. No inicio eu fui levada a acreditar que a história envolveria a decepção destas quatro mulheres com este homem, e de que maneira elas deram a volta por cima desta situação, o velho e o bom clichê de um amor acabado e de como é possível esquecer as inseguranças e os medos para abrir o coração novamente para um sentimento nobre.

 Lola é uma consultora de moda que perdeu a mãe a pouco tempo, e costuma conversar com seu espirito diariamente buscando conselhos divinos para suas tomadas de decisões. Em uma dessas conversas, no cemitério, ela conhece Paddy, que por coincidência também perdeu a mãe quando ainda era uma criança. Eles começam a conversar e iniciam um relacionamento baseado em sexo selvagem e muita perversão.

Marnie é irmã gêmea de Grace e as duas conhecem Paddy e Alicia desde adolescentes. Grace, uma jornalista audaciosa, se apaixona a primeira vista por Paddy, porém quem ganha a atenção do moço é sua irmã Marnie. Eles namoram por muitos anos e vivem um relacionamento repleto de um ciumes doentio. Sua melhor amiga, no caso, Alicia também possui uma paixonite pelo tão charmoso e irresistível De Coury, e faz de tudo para afastar Marnie de seu amado.

Anos se passam e as quatro mulheres continuam a viver suas vidas, mas de alguma maneira nenhuma delas se esquece do que viveu com Paddy De Coury. A história  começa a se cruzar quando as personagens são pegas de surpresa por uma informação que vaza na mídia da noite para o dia: Paddy vai se casar, e a escolhida é nada menos, nada mais, que Alicia, sua antiga conhecida da juventude, que movia mundos e fundos em nome de uma paixão adolescente. Lola, sua então namorada no momento, enlouquece de raiva, não entendendo como na noite anterior era a oficial companheira de Paddy, e no dia seguinte ele vai se casar com outra. Marnie no entanto, passa a reviver o passado sombrio e cair em uma depressão tão profunda, que a leva ao alcoolismo, no caso, retratado de maneira muito verossímil. Grace entra em desespero pela irmã, e também possui sua cota de lembranças nada agradáveis do então politico mais falado na Irlanda.

Como eu disse anteriormente, o livro não se mostra apenas como uma história de desilusão amorosa e sua superação clichê e já conhecida de filmes de romance. A cada final de um capítulo, somos surpreendidos com histórias de um homem que quebra os ossos de uma mulher, estupra outra após a mesma realizar um aborto voluntário, queima a palma da mão de suas vitimas com cigarro e as obriga a se humilhar dizendo que merecem apanhar por não serem consideradas mulheres de respeito. Confesso que não entendia o porquê de depois de capítulos contando a historia das protagonistas e suas reações com a noticia do casamento de Paddy De Coury, ser entregue a mim duas páginas de violências abusivas contra mulheres.

O meu choque não foi ler em detalhes os atos de terror que este homem cometeu contra essas mulheres e sim um diálogo que me arrancou lagrimas de dor e ódio:

- "O que você pretende fazer?
- Com o quê? O resto da minha vida?
-..É, acho que é isso. Ou até você superar isso.
- Eu não sei. O que as pessoas fazem? Esperam passar.
Mais fácil dizer do que fazer"

Ler Cheio de Charme me trouxe desdobramentos de histórias sobre violência consciente e gratuita contra mulheres. A cada página virada fui tomada pelas atitudes destas bravas mulheres em superar a cada dia que passa uma agressão física e psicológica, as consequências do ato deste monstro, e um final justo a aqueles que acreditam que superação é um sentimento maior que a coragem, e ainda maior que o amor próprio. Superar pode ser mais difícil que sentir medo, mais difícil que não sonhar com um monstro debaixo da cama, em suar frio com a proximidade de um ser humano e por não acreditar mais na imagem refletida no espelho. Mais cada calafrio desses vale a pena quando o sol ascende dentro de nossos corações e mostra que força interior importa mais do que qualquer medo de encarar a felicidade. Eu disse no inicio que gostaria de fazer jus a essa história, e deixo abaixo minha própria sensação do que é ser uma mulher e como a perseverança em superar é um sentimento constante em nossas vidas:

Ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida. É lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora. É estar antes do ontem e depois do amanhã. É desconhecer a palavra recompensa, apesar dos seus atos. Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas, é correr atrás das nuvens num dia de sol, é alcançar o sol num dia de chuva. Ser mulher é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza. É acreditar quando ninguém mais acredita. É cancelar sonhos em prol de terceiros. É esperar quando ninguém mais espera. Ser mulher é identificar um sorriso triste e uma lagrima falsa. É ser enganada e sempre dar mais uma chance. É cair no fundo do poço e emergir sem ajuda. Ser mulher é estar em mil lugares de uma só vez, é desempenhar mil papeis ao mesmo tempo. É ser forte e fingir que é frágil, só para ter um carinho de vez em quando. Ser mulher é se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas. É distribuir emoções que nem sempre são captadas. Ser mulher é comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos, mas jamais dever. É construir castelos na areia, vê los desmoronados pelas águas e ainda assim ama los. Ser mulher é saber dar o perdão, é tentar recuperar o irrecuperável, é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar. Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu, é doar o que não foi solicitado. É não ter vergonha de chorar por amor, é saber a hora certa do fim. É sempre buscar um recomeço. Ser mulher é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das decepções. É ser mãe dos seus filhos, dos filhos dos outros, é ama los igualmente e incondicionalmente. É ter confiança no amanha e aceitação pelo ontem. É desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos. É fincar a bandeira da conquista. Ser mulher é afinal entender as fases da lua, por ela ter suas próprias fases.

Já dizia Paulo Coelho "Imagine uma nova história para sua vida e acredite nela". O livro de Marian Keyes nada mais é do que a perseverança em acreditar que depois de uma ferida aberta, ainda sim existem maneiras de fecha -la com o perdão próprio, e a crença de que o amanhã será um dia melhor do que o de ontem.

Boa leitura!