sexta-feira, 6 de março de 2015

Férias – Marian Keyes


"Às vezes, quando está escrito, as pessoas do nosso passado voltam."

As vezes não é preciso ser cego para não enxergar um palmo do que está acontecendo na sua frente. Este fato, alias, acontece com muita frequência na nossa vida. Quem nunca ouviu de um amigo ou parente: "O problema estava dançando samba na sua frente e você se negava a enxergar". Bom, é exatamente sobre essa "cegueira" que o livro de Marian Keyes trata. 

A protagonista desta tocante história é Rachel Walsh. Ela tem 27 anos e é muito amiga das drogas. Sim, ela é uma toxicômano, mas acha que não é magra o suficiente para ser taxada como tal. Prepara-se para lidar com uma história pesada, comovente, forte e muito engraçada. Marian Keyes é conhecida por tratar em seus livros assuntos polêmicos, porém sempre com uma pitada de humor. 

Vamos ao livro: Rachel namora Luke Costello, um homem que usa calças de couro justas e têm amigos um tanto quanto esquisitos. Fato, é que os dois possuem uma química extraordinária e logo quando se conhecem, já sentem que dali não vão mais conseguir se largar. Até aí, muito bonito e romântico, se não fosse Rachel passar cada dia mais usando remédios fortíssimos para dormir, misturados a quantidades abundantes de álcool e uma leve "cheirada" na conhecida cocaína. Digo leve, porque a própria Rachel acredita que não está lhe fazendo mal. Essa rotina apenas a deixa mais relaxada, a faz dormir tranquila e não atrapalha em nada seu trabalho, seu namoro e seu relacionamento com as pessoas. Isso, é o que ela enxerga, claro. 

A reviravolta do livro se dá quando Rachel sofre uma overdose que quase tira sua vida. Nesse ínterim, sua família resolve interna-la no Claustro - a versão irlandesa da Clínica Betty Ford. Para quem nunca ouviu falar, Betty Ford é uma clinica repleta de artistas, banheiras de hidromassagem, academia e várias mordomias a altura de uma celebridade viciada em drogas. Então Rachel pensa "Porque não? Já estava na hora mesmo de tirar umas feriazinhas". Daí vem o título do livro.

As coisas mudam totalmente de cenário quando Rachel encontra homens de meia idade usando suéteres marrons, uma quarto mequetrefe para dormir, tarefas domésticas obrigatórias, nada de televisão, academia, rádio ou leituras superfulas. Na verdade, ela possui uma rotina regrada e sessões de terapia em grupo. São nessas sessões que Rachel se vê cara a cara com muitas histórias de viciados em drogas, álcool, sexo e remédios para dormir. Em cada sessão todos podem acompanhar a cirurgia mental da cegueira se tornando olhos que acabaram de renascer das cinzas, enxergando absolutamente tudo em um clarão imenso, e se dando conta da mais pura e dura realidade. Rachel se encontra no seguinte dilema: "Quem quer abrir as janelas da alma, quando a vista está longe de ser espetacular?"

Cheia de dor de cotovelo pelo sumiço do namorado Luke, e por estar cada dia mais próxima da aceitação de sua situação, Rachel busca em Chris, um homem também internado no Claustro, sua salvação. Porém, lendo o livro, sabemos muito bem que não adianta fugir para todos os lados, quando a salvação está dentro de nós mesmos. Foi aqui, que o livro me tocou de uma forma surpreendente. Rachel é levada da dependência química para o terreno do desconhecido da maturidade, e é extremamente surpreendida quando recebe a visita do namorado em um duro choque de realidade, que a leva a sair da clinica de reabilitação e encarar duros anos batalhando para ficar longe do vicio e aceitar aquilo que a rodeia. 

Não vou entregar o final do livro, mas garanto que ele comove o leitor pela luta diária de nossa protagonista, e prova que o destino é mesmo um cara "fanfarrão". Segundo o livro, se está escrito, aquilo que nos faz bem e é nosso, volta no tempo certo, mesmo que tenhamos que passar por duríssimas provas ao encontro do auto conhecimento. 

Rachel não só virou um exemplo para mim de uma mulher guerreira e astuta, mas de um ser humano normal, fraco aos próprios olhos, que erra mas é capaz de dar a volta por cima, mesmo sendo impulsiva, teimosa e orgulhosa. 

E não é exatamente assim que somos? Cegos por inteiros, mas sempre premiados pela vida pela possibilidade de voltar a enxergar? Não sei o porque, mas quando terminei o livro, me peguei com olhos marejados e refletindo: "Já sei porque as vezes tenho que sofrer tanto, eu deixo minha cegueira me dominar, mas se eu for capaz de aceitar os fatos e lutar contra meu maior inimigo, eu mesma, serei capaz de cumprir meu destino, porque o que está escrito, sempre volta ao meu encontro. 

Obrigada Marian Keyes, você me ensinou uma grande lição com este livro. Indico a todos que acham que podem estar cegos em sua própria ilusão. 

Boa leitura!