terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Jantar – Herman Koch

 

"Tal pai, tal filho."
Sou uma fã assumida de suspenses psicológicos, e não pude deixar de passar reto por uma prateleira em especial no andar de uma livraria em São Paulo. Eis que me deparo com uma capa vermelha e a sombra de 4 pessoas com o título "O Jantar". Lendo a sinopse, o autor prometia uma leitura recheada de tensão. Bom, ele cumpriu o que prometeu. O livro de Herman Koch faz com que você sinta ódio, raiva, amor, empatia ou qualquer outro sentimento genuíno pelos personagens desta história intrigante. Posso afirmar com convicção que meus sentimentos foram elevados a um novo patamar.

O Jantar é narrado por Paul, irmão de Serge Lohman, um candidato a primeiro ministro que mantém sempre um sorriso no rosto. No inicio, Paul descreve seu irmão como um falso hipócrita que só possui o egocentrismo como prioridade para reger a sua vida. Admito que nos primeiros capítulos simpatizei e até tive pena de Paul, e muita raiva do jeito grosseiro de ser de Serge. Mas as coisas mudam...ou melhor, as máscaras caem.

Os capítulos são divididos em: entrada, prato principal, sobremesa e digestivo. O livro começa e termina em um restaurante de classe alta, onde Paul, Serge e suas respectivas esposas se encontram para discutir o futuro de seus filhos, que ao longo da narrativa, vamos descobrir que cometeram um crime revoltante.

Eles iniciam o tenso jantar falando sobre trivialidades, como filmes que estão em cartaz e sobre suas férias de verão. Conforme o prato principal vai sendo servido, é Serge quem chega ao cerne da questão, e a partir daí a narrativa ganha traços cada vez mais obscuros.

Seus filhos (Michael e Rick) cometeram um crime de deixar qualquer um com a boca aberta: ao sair de uma festa eles vão sacar dinheiro em um caixa eletrônico e encontram uma sem teto dormindo no meio de cobertores e papelões dentro do recinto. Fedendo muito e incomodando os adolescentes, os mesmos resolvem jogar em cima dela tudo o que encontram pela frente (lixo, um abajur abandonado e até que resolvem por fim incendia-la). O problema é que tudo foi gravado por um câmera de segurança e divulgado na mídia como um crime passional de horrível repercussão, e todos querem saber quem são os autores de tal absurdo. Seus rostos não ficam claros na gravação, por isso nenhum dos dos dois adolescentes é descoberto, mas Paul e Serge sabem muito que são seus filhos os participantes daquela cena que paralisa toda a Holanda (um pai sempre reconhece seu filho a kms de distância).

É visível a habilidade que o autor tem de engabelar o leitor durante o enredo. Paul narra desde as excentricidades do jantar (como por exemplo, a mania irritante do gerente do restaurante de apontar cada prato com o dedo mindinho) à sua vida particular. No meio de uma narrativa e outra, somos levados a conhecer mais a fundo a personalidade de cada personagem. Paul sofre de bipolaridade e é expulso de seu trabalho por ser considerado violento, e sua esposa encara uma doença gravíssima, onde quase deixa Paul sozinho no mundo com Michael. Serge e a esposa adotaram um garoto da África que mais tarde descobrimos estar chantageando Michael e Rick por ter presenciado todo o crime. Ou seja, a cada página virada, somos surpreendidos a ponto de querer roer as unhas e acabar logo com aquele mistério todo.

Toda minha reação ao longo da leitura foi de choque. Choque de ver como o ser humano é capaz de banalizar a vida humana, e até onde um pai e uma mãe são capazes de ir para salvar a vida de um filho. O debate maior da obra é sobre se eles deveriam entregar seus filhos a justiça ou simplesmente acobertar o crime e encarar o ato como mera infantilidade. Porque incendiar uma sem teto é bem normal nos dias de hoje, certo?

O melhor momento da obra em minha opinião é quando Paul narra a vez que Michael teve que fazer um trabalho escolar sobre o tema "pena de morte". Neste momento conseguimos perceber que Michael e o pai acreditam que seres que não fazem a menor diferença em uma sociedade devem sim...morrer e sofrer. Nessa hora fiquei pasma e pensei "preciso escrever sobre isso". Vamos ao tema em questão por alguns minutos: sou a favor da pena de morte para pessoas que cometeram crimes horripilantes, como foi o caso no Brasil da filha que matou os próprios pais pela cobiça de sua fortuna, ou o casal que jogou uma menina de 5 anos de uma janela porque ela era muito mimada. Para mim isso soa como pura crueldade e sim, merecem um fim trágico, se não a pena de morte, pelo menos um trabalho agonizante até o fim da vida. Agora, incendiar uma sem teto somente porque ela estava dormindo dentro de um caixa eletrônico? Até que ponto foi nos dado o poder de tomar uma decisão como essa? Se até para a pena de morte, existe um julgamento minucioso a respeito da sanidade do condenado, como um mero cidadão caminhando pela rua resolve machucar alguém pelo simples fato de ter prazer com isso? Essa é a grande questão abordada na obra de Herman Koch.

No final do livro, ficou claro para mim que "tal pai, tal filho", caberia muito bem para analisar a situação como um todo. Paul sofre de distúrbios sérios e pode ter passado essas características para seu filho Michael e o levado a cometer o crime por simples justificativa de uma doença mental. Mas e a mãe de Michael? Ela não possui nenhum problema psicológico que justifique sua postura em defender o filho alegando ser uma brincadeira de criança, uma imaturidade que ao longo da vida será corrigida. Serge não possui nenhum traço problemático, somente o fato que é uma figura publica e não deu muita atenção ao filho Rick, aí me questiono novamente: seria essa também uma desculpa para o crime? Carência o levou a machucar o próximo para conseguir chamar a atenção?

Quais são as reais justificativas para os atos horrendos que cometemos contra o ser humano? Essa é a grande polemização a cerca do livro. Acredito estar tão chocada com o desfecho dessa leitura que não consigo criar um fim apropriado a essa resenha, a não ser recheá-la de questionamentos.

Para terminar deixo uma mensagem de Fernando Pessoa para reflexão:

"Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do bojador, tem que passar além da dor. Deus ao mar, o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu."
Boa leitura!