terça-feira, 16 de setembro de 2014

Quando ela acordou – Hillary Jordan


"Como poderiam a predeterminação e o livre- arbítrio existirem ambos?"
Lembram-se quando disse em posts anteriores que sou altamente atraída pelas capas dos livros? 
Parece que mais uma me fisgou, quando andando pela livraria bati o olho em "Quando ela acordou". 
A capa traz uma imagem de uma mulher encapuzada, onde se consegue apenas ver seu nariz, boca e um pedaço de seu pescoço. O que chama a atenção é que ela é vermelha. Isso mesmo, sua pele é da cor vermelho sangue. Na hora em que vi, pensei: "preciso saber o porque". 
Eis que soube do porquê em apenas dois dias, que se passaram voando com essa leitura que me deixou de boca aberta e ao mesmo tempo pasma em como a criatividade de uma autora pode voar longe, talvez tão longe, que nem eu como leitora jamais sonhei em ir. 
O livro conta a trágica história de Hannah Payne. Ela é uma menina que foi criada com preceitos extremamente radicais em relação a vida. Sua família é religiosa fervorosa e se dedica 100% do tempo a Igreja. Hannah aprendeu, que a mulher foi criada para servir ao homem, obedece-lo e nunca questionar suas atitudes ou decisões. Gays, sexo sem objetivo de procriação, música e livros (exceto os religiosos e eruditas), roupas que mostrem qualquer característica sedutora do corpo de uma mulher, são considerados atos de Satã, pecados mortais e sem perdão. Deus nos colocou no mundo para servi-lo, ser bom sem questionar o porque de nada e nem de ninguém. Foi assim que Hannah cresceu, dentro de uma caixinha devota a um Senhor que castiga, pune e não perdoa nenhum "pecado". 
A tragédia se inicia quando Hannah é acusada de um assassinato. Aqui o livro se torna interessante: ele se passa em uma era futurística, onde os julgados como criminosos tem sua pele geneticamente alterada para combinar com o delito que cometeram.  Os Cromos, como são chamados, ficam 30 dias encarcerados em uma sala cheia de espelhos enquanto a nova cor de sua pele vai tomando forma, e são assistidos como em um reality show para o resto da população.
Após este pequeno mas tortuoso tempo, eles são soltos e vivem entre os seres humanos "normais",
angariando na pele (literalmente) o preconceito, humilhação e maus tratos. E apesar de viverem em sociedade, possuem um chip onde são controlados por qualquer um a qualquer hora. Como vocês devem ter imaginado, vermelho é a cor do pior crime, dos estupradores, assassinos e mau caráteres. 
A vitima de Hannah foi seu filho, que não chegou a nascer. Ela cometeu um aborto de um caso extraconjugal que teve com o pastor da Igreja que sua família frequenta e tanta adora. Porém, ela está decidida a proteger a identidade do pai do bebê e do homem que realizou o "procedimento".
E é assim que se inicia a trajetória da nossa protagonista, uma menina que foi obrigada a mudar sua
identidade, e passa a enxergar a vida de uma maneira completamente diferente daquela que foi ensinada a ela. 
O livro, além de ser bem narrado, prende a atenção e o folego em um thriller emocionante, que aos poucos vai revelando o descobrimento de uma mulher estigmatizada, que luta o tempo todo para sobreviver a um cenário de preconceitos. A batalha interna que ela mesma cria entre Igreja e Estado e a obrigação de se ver no espelho e questionar os mesmos porquês que questionava enquanto "pessoa normal", mas agora, na pele de uma Cromo e considerada extremamente perigosa.
O que mais me deixou com vontade de escrever esta resenha, foi a visão que Hannah vai criando conforme o seu tempo como criminosa vai passando. Ela questiona se o seu Deus é o mesmo que o dos outros. Pode -se inventar seu próprio Deus? Definitivamente, na fé em que ela fora criada, não. Ela compara esse pensamento ao quadro de Mona Lisa.As mãos da moça misteriosa de Da Vinci permaneceriam sempre cruzadas daquele jeito, ela jamais se viraria para olhar a paisagem atrás dela, jamais afastaria do seu rosto um cacho de cabelos caídos, jamais bocejaria nem sorriria de uma orelha a outra. As pessoas poderiam observa-la, mas nunca pegariam um pincel e mudariam alguma coisa nela, só porque assim queriam ou acreditariam. Só pensar em uma coisa dessas, já seria heresia. 
Será que seria mesmo? 
Vamos refletir: qual a diferença entre as ações de Deus e as nossas próprias escolhas? 
Tornar-se amante do pastor da Igreja, submeter-se a um aborto, decidir por escolhas que afetariam o resto de sua vida ao lado das pessoas que ama, experimentar diferentes formas de sentir prazer, foi uma ação que Deus impôs a Hannah antes de ela nascer, como uma missão, ou foi sua própria escolha que a fez trilhar aquele caminho? Como poderia, assim como o titulo desta resenha, a predeterminação e o livre arbítrio andarem juntos, lado a lado? 
E se foi sua escolha, porque ela optou por uma que só lhe causaria dor? Fui questionando isso ao longo do livro e descobri junto a Hannah os seus motivos.
Ela sempre se sentiu presa dentro de uma caixa. A caixa da devoção a religião, a caixa do proibitivo, de ser a boa moça que apenas obedece, a santa imaculada. E depois de condenada, a caixa de ser manejada o tempo todo por outras pessoas. De ser dependente. 
Mesmo "livre" e vivendo como uma pessoa de pele "normal", ela estava presa. Foi no sentido literal da palavra "presa" onde ela encontrou o caminho verdadeiro para ser livre.
E essa foi a lição deste livro surpreendente, as vezes é na prisão e nas situações que exigem mais de nossos esforços, que encontramos a tão sonhada liberdade de expressão, de pensamentos e atitudes. 
Só posso finalizar dizendo que Hillary Jordan me deixou extasiada com essa leitura e me levou tão longe, que passei a questionar se sou livre só porque posso sair de casa a hora que quero e usar as roupas que bem entendo. Será que sou mesmo? O que é liberdade para mim? E para você? Você se considera livre?
Como diz Leon Tolstoi: "Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência".
Indico a leitura para aqueles que buscam ou ainda não sabem que buscam, a sua verdadeira identidade dentro de uma sociedade que ainda carrega preconceitos, e preceitos pré definidos e impostos a todos.  
Como eu costumo dizer, eu gosto assim, quando me fazem pensar. E esse definitivamente colocou minha cabeça para funcionar.