quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Musashi - Eiji Yoshikawa

Pense em um samurai.
Você acabou de pensar em um cara de uns 40 anos/ senhor de idade, "sábio","zen", com uma paciência, habilidade técnica e coragem fora do comum. Você acabou de pensar em Miyamoto Musashi (que na verdade era um Ronin, um "samurai" sem mestre que fez o próprio estilo de combate, mas enfim).
Se você conhece um mínimo sobre a cultura ou história do Japão, com certeza já tinha lido ou ouvido alguma coisa sobre ele. Além de samurai mais famoso do Japão, Musashi também era escultor, calígrafo, filósofo e escritor, sendo sua obra mais famosa o livro dos "Cinco Aneis", sobre estratégia de combate e técnicas espadachins. Mas, como Musashi virou O Musashi? Sempre foi uma pessoa brilhante com um destino de sucesso óbvio? O que fez para ser o mais famoso de todos os samurais? Qual foi seu papel na história japonesa?
Juntando fatos históricos aceitos, lendas e relatos escritos pelo próprio Musashi, o jornalista Eiji Yoshikawa construiu uma obra verossímil e emocianante, realista e épica, que vendeu 120 milhões de cópias no Japão e se firmou como um clássico da literatura daquele país.
Tendo como cenário o Japão do início do séc. XVII , a narrativa tem como centro o jovem rebelde e agressivo Takezo, que se inicia com o retorno deste junto a seu amigo Matahachi para seu vilarejo, após uma participação militar junto ao lado perdedor na grande batalha de Sekigahara. Dando um resumo totalmente mastigado com o intuito de não estragar partes interessantes do livro, Takezo chega sozinho ao vilarejo, e, devido a seu histórico de agressividade e desprezo aos habitantes locais, é acusado de ser responsável por uma possível morte de Matahachi. Após alguns desentendimentos com os habitantes locais e um contato com um monge, Takezo é preso mas consegue acesso a livros durante sua pena, o que o faz ter uma visão de mundo mais abrangente, densa e serena. Esse 'renascimento' vem acompanhado de um novo nome e uma nova ambição: Myiamoto Musashi, um ronin disciplinado cujo único objetivo é o treino obsessivo pela busca da perfeição tanto espiritual como militar.
Usando de alguns personagens fictícios para efeitos de dramatização, Yoshikawa não se deixa levar pelo romantismo barato e não esconde  relatos ou características de Musashi que poderiam afastá-lo da imagem de 'guerreiro com uma honra e determinação impecáveis' (sendo que algumas dessas não são escondidas nem pelo próprio Musashi, que menciona o aproveitamento das fraquezas e a perturbação psicológica do inimigo como estratégias fundamentais em um combate; não é o tipo de coisa que se esperaria de um 'guerreiro com honra e moral ímpares', não é mesmo?), além de fazer menção a vários aspectos históricos do período e não esconder a clara decadência da figura do samurai durante e após a expansão de poder político pelo clã Tokugawa, tendo a presença da figura razoavelmente comum do samurai que virou  funcionário público, devasso, bandido de estrada, membro de máfias organizadas que seriam o embrião da atual Yakuza ou até mesmo comerciante ou camponês em diversas partes do livro. 
Um outro aspecto importante da edição brasileira do livro é a sua tradução e contextualização histórica magistral, com diversas notas de rodapé explicando desde a estrutura da caligrafia de ideogramas a aspectos culturais e históricos, o que possibilita uma melhor compreensão textual e cultural para aqueles que não tiveram tanto contato assim com a cultura japonesa.
'Musashi' é um livro excelente, capaz de agradar muito diversos tipos de pessoas. Não se intimide pelo tamanho: é o livro de 2000 páginas que você vai ler mais rápido na vida.