terça-feira, 2 de setembro de 2014

O silêncio das montanhas – Khaled Hosseini

 

"O tempo é como um encantamento. A gente nunca tem o quanto imagina."

Você já parou para refletir sobre o significado da palavra "tempo"? Você já teve aquela sensação de que os meses e os anos estão cada vez passando mais rápido? Não parece que foi ontem que você lembra de uma criança que hoje se tornou um adulto pagante de suas próprias contas? No meio dessas reflexões, você sentiu saudade de alguém ou alguma coisa? Já teve vontade de entrar em um túnel do tempo e fazer tudo de novo, só que desta vez, diferente?

 Pois é exatamente sobre isso que fala o livro do medico e escritor afegão, Khaled Hosseini. Em "O silêncio das montanhas" tudo gira em torno da separação de dois irmãos: Pari e Abdullah. No primeiro capitulo o pai dos irmãos inseparáveis conta-lhes uma antiga fabula afegã, onde um monstro abominável rapta crianças e as leva para seu castelo, e nunca ninguém mais ouve falar delas. Na fabula, um dos pais fica tão atordoado quando um de seus filhos é sequestrado pelo monstro, que percorre montanhas arenosas para resgata-lo, e quando chega ao castelo, percebe que seu filho está saudável, mais gordo, de banho tomado, estudando e brincando em um lindo jardim. Eis que o monstro diz para o pai que ele tem duas opções: levar de volta o filho para a aldeia pobre e sem chances de um futuro melhor para a criança, ou deixa-lo ali, sendo bem cuidado e tratado, com chances de se tornar alguém importante e estudado. Claro que em qualquer opção, existe uma regra: a criança nunca se lembraria de seu passado, mas o pai, sim. Parece a tal da dúvida que sofre Sofia no filme tão polemico de Alan J. Pakula.

 No decorrer dos capítulos, percebemos que a tal fabula começa a fazer sentido, quando o pai dessas crianças, resolve vender sua filha Pari, a Nina Wahdati, uma poeta meio afegã, meio francesa. Pari ainda é muito menina e acaba apagando de sua memoria sua verdadeira origem, que é ao lado do irmão  Abdullah em sua cidade natal, Cabul. Vocês já devem ter percebido que quem realmente sofre nesse livro, é o irmão, que vamos ter o desprazer de acompanhar toda sua dor em não saber o que houve com sua irmãzinha tão amada.

 O autor avança e retrocede no tempo ao longo dos capítulos. Viajamos de 1949 a 2010 em cada página virada, e nelas conhecemos outros personagens, que por algum motivo e razão, estão ligados aos verdadeiros protagonistas. Conhecemos Nabi, um chofer e cozinheiro, que conquista o coração de seu patrão, que vamos descobrir mais tarde é casado com Nina Wahdati e pai de Pari. Somos apresentados aos primos Idris e Timur que moravam na mesma rua que a família Wahdati quando crianças ,e acabam  fugindo do Afeganistão para se refugiar nos Estados Unidos. Adel, que é filho de um cruel criminoso politico, mora em uma mansão, que é construída indevidamente no lugar que ficava a  antiga aldeia que Pari e Abdullah moravam antes da separação. O medico grego Markos, que trabalha como voluntário em Cabul e acaba se tornando um dos melhores amigos de Nabi. As irmãs Parwana e Masooma, que por conta de uma inveja enrustida, podem ter sidos as primeiras responsáveis por todo o sofrimento dos nossos personagens principais.

 O livro possui apenas 9 capítulos, mas cada um deles se assemelha a contos, que se entrelaçam e vão formando o desfecho da historia onde acontece o tão esperado reencontro depois de 58 anos de Pari e Abdullah. A história de todos esses personagens é ambientado no Afeganistão, Estados Unidos, França e Grécia. Além de imergir na estória, e como um detetive, juntar as peças para entender qual a ligação entre todos os personagens, ganhamos gratuitamente uma aula de história, passando por guerras civis e politicas, preconceitos e cenários preocupantes de extrema precariedade e pobreza.
 Não vou entregar qual afinal é a ligação de todos esses personagens e como o livro termina. Com final feliz ou não, o livro me trouxe a reflexões a cerca do tempo e os planos que fazemos que podem ser completamente modificados, novamente por culpa dele, o tempo.

 Uma das frases que mais me chamou a atenção nesta obra, traz o que de fato quero falar dessa resenha:

"Dizem que a gente deve encontrar um propósito na vida e viver este propósito. Mas, às vezes, só depois de termos vivido reconhecemos que a vida teve um propósito, e talvez um que nunca se teve em mente."

 Ao longo de nossa vivência traçamos planos e propósitos: "Serei medico quando crescer e vou salvar muitas vidas", "Serei advogado e cuidarei de grandes causas" "Vou ser veterinária e não deixar nenhum animal ser abandonado". Até ai, tudo muito nobre, mas e os percalços da vida?

 Como teria sido a vida de Abdullah e Pari se nunca tivessem se separado? Como lidar, quando uma grande pedra aparece no meio do nosso caminho? Querendo ou não, vivemos isso constantemente sem nem perceber. A todo momento, nossos planos são atrapalhados na tão conhecida "causa e efeito da vida", e quando vamos nos dar conta, já se passaram anos e nada foi feito. Apenas vivemos na inercia dos acontecimentos.

 O engraçado é que mesmo não nos dando conta, a vida nos prega algumas peças, querendo nos alertar a todo momento dos nossos propósitos. Por exemplo: você nunca conheceu alguém que teoricamente não tem nada a ver com sua vida e ela acaba se tornando o meio de se chegar ao objetivo principal? A ligação de todos esses personagens, não seria um aviso de que mesmo com a tal da pedra no caminho, temos que  traçar nosso proposito de alguma forma?

 Temos que ser testados e nem tudo chega ao seu objetivo da forma que imaginamos quando o jogo dá a largada. É preciso dançar conforme a música, certo?

 Gostaria de definir a palavra "propósito". Segundo o Aurélio: "Propósito ou intencionalidade é a capacidade através da qual tomamos posição frente ao que nos aparece. Diante de um fato, podemos desejá-lo ou rejeitá-lo. Ante um pensamento, podemos afirmá-lo, negá-lo ou suspender o juízo."

  Lendo esta obra, eu tive uma certeza: o tempo é uma dadiva que nos é dada, porém poucos sabem aproveita-la em seu próprio proposito. Que tal começar a repensar no tempo que já se passou, e no que aconteceu em sua vida, e porque aquele tão planejado proposito ainda não aconteceu?
 Preparado?

 Se a resposta for positiva, indico essa leitura, que além de ser emocionante, bem narrada e muito realista, nos traz a reflexões próprias e mudanças em nossos propósitos extremamente significantes. Aconteceu comigo, porque não com você?